Não é novidade que o contexto do trabalho está associado a números alarmantes sobre a saúde mental no Brasil, o que implica prejuízos culturais e financeiros para as empresas, para o indivíduo e suas relações além do trabalho.
Neste texto, não vou abordar tecnicamente possíveis causas ou soluções simples para um problema tão complexo como esse, apenas levanto uma reflexão valiosa e pontual sobre o tema.
A ideia de performance e atingimento de metas como centro viabilizador do sucesso de um negócio, muito comuns e necessários no contexto da atuação profissional (com certas ressalvas), são tópicos que têm extrapolado os contornos do corporativo, tornando-se força de movimento e expectativa dentro das relações familiares, ou principalmente do indivíduo consigo mesmo.
No trabalho, o maior componente de valor do indivíduo é constituído pelas entregas que faz, pelas metas atingidas, pela expectativa de que continuará tendo condições de atingir pelo menos mais que o mínimo, o que faz sentido se levarmos em conta apenas o que o mercado em seu modo radical preconiza enquanto ideal.
Mas nada surge ‘do nada’: nos moldamos nas vivências e passamos em média oito horas por dia no trabalho, nossos modos de percepção e construção da interpretação sofrem influência dinâmica dessa frequência, oscilações e intensidades. Ao sairmos do trabalho, por exemplo, não basta termos em mente que o expediente encerrou e que estamos simplesmente entrando em ‘modo vida pessoal’ a partir de então, para o coração e para o ‘corpo emocional’, essa distinção não necessariamente fica bem delimitada, ela não se elabora completamente na simples troca de espaços físicos, não se pode simplesmente sair de uma vivência como se não tivesse passado por ela.
A pessoa não está no trabalho, mas:
Irrita-se ou se frustra desproporcionalmente quando o outro não ‘lhe entrega o esperado’;
Objetifica o outro como lento demais em alguma atividade que ‘deveria’ estar sendo executada com maior agilidade, sendo uma atividade que talvez nem lhe cause impacto direto ou tão grande assim;
Sente culpa, pelo menos um incômodo ‘sem explicação’, pelo simples fato de descansar;
Sente que deve estar fazendo algo, sendo “produtivo” o tempo inteiro, para sentir que seu dia “valeu”;
Não estou dizendo que os exemplos acima são causas ou consequências, eles podem não se restringir ao contexto da produtividade econômica. Vale considerar que, se o ambiente de trabalho e a qualidade da sua cultura é de responsabilidade da empresa, cada indivíduo também precisa perceber sua participação e corresponsabilidade pelo modo como gere sua vida dentro e fora do trabalho.
O mercado já é implacável o suficiente, não espera por ninguém e essa mesma lógica não precisa definir as relações com aqueles que temos maior apreço. Em casa, com amigos ou principalmente consigo mesmo, essa lógica não apenas não funciona, como corrói pouco a pouco a ponte que precisamos para atravessar boa parte dos desafios da vida: a integridade dos afetos.
Não somos máquinas!
O fenômeno da vida não cabe em metas preestabelecidas e sua qualidade como existência não deve ser medida pela performance corporativa, muito menos por uma “performance relacional ou pessoal”!